"O simples facto de o doente se sentir compreendido é, em si mesmo, terapêutico"

Quem o diz é o médico, psiquiatra e professor universitário Júlio Machado Vaz. "A confiança depositada no médico é uma variável importante no tratamento", frisa o especialista que sublinha que a medicina personalizada deve ser não só o futuro como também o presente.

Como é que deve ser uma boa relação médico-doente?

A relação médico-doente deve ser o encontro entre dois sujeitos em que um é especialista em doenças e o outro na sua doença. Ambos têm modelos explicativos para as queixas. Da sua articulação nasce uma aliança terapêutica que permite decisões partilhadas quanto ao melhor tratamento.

De que forma é que os médicos aprendem ou adquirem essas competências de socialização com os doentes que têm expectativas próprias?

Desejavelmente durante o ensino pré-graduado, mas não nos iludamos... Saímos das faculdades licenciados em Medicina e só depois nos tornamos médicos. Neste momento várias escolas médicas incluíram nos currículos disciplinas sobre a relação médico-doente. Para além das competências comunicacionais, importa não esquecer que o cuidar é tão importante como o curar, sobretudo em sociedades envelhecidas em que as doenças crónicas são cada vez mais frequentes, implicando acompanhamentos longos e verdadeiros cocktails de medicação que obrigam a um extremo bom senso no avaliar das possíveis reações adversas.

Importa não esquecer que o cuidar é tão importante como o curar

É importante haver empatia por parte do médico?

Seguramente, desde logo porque aumenta as hipóteses de adesão ao tratamento e de fidelização àquele clínico. Para mim são preocupantes os inquéritos em que os doentes afirmam não se importarem de mudar de médico assistente. Por outro lado, o simples facto de se sentir compreendido e respeitado é, em si mesmo, terapêutico. A velha máxima segundo a qual o médico se prescreve a si mesmo permanece válida.